Mitologias

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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

A Contenda de Hórus e Set (Papiro Chester Beatty )


A história mitológica da disputa entre Hórus e Set pelo trono do Egito pode ser encontrada no Papiro Chester Beatty. Este é uma coleção de textos antigos encontrados por Chester Beatty. Ele data da vigésima dinastia do Egito e contêm também vários textos bíblicos.
    A parte referente a Hórus e Set conta a história do que aconteceu após a morte e ressurreição de Osíris quando Set era o Governante. Hórus havia atingido idade de reivindicar o trono do pai e os dois compareceram ao tribunal dos deuses para defender suas causas.
  

Tradução para o português da parte 1 do Papiro de Chester Beatty:

  
Houve uma época em que ocorreram várias disputas entre Hórus e Set, misteriosos em suas formas, os mais poderosos entre os príncipes que já vieram a existir.
O jovem deus (Hórus) estava sentado na presença do Senhor Universal (Atum), clamando para si o encargo de seu pai Osíris, o Belo, filho de Ptah, aquele que ilumina o oeste com sua presença. Thot apresentou seu Olho Imaculado ao Grande Senhor que está em Heliópolis.
Então, Shu, filho de Rá, disse na presença de Atum, o grande Príncipe:
"A  Justiça possui poder. Consagra-a: Dê o encargo a Hórus."
E Thot concordou dizendo: 
"Isto está um milhão de vezes correto."
Então, Ísis soltou um grito de alegria incontida. Ela veio perante o Senhor Universal e disse:
"Vento do Norte, vá para o leste. Leve as boas notícias a Osíris".
E Shu, filho de Rá, falou:
"Aquele que apresenta o Olho Imaculado é fiel à Enéade.
E o Senhor Universal falou:
"Como ousais tomar decisores por conta própria? Dizei- me."
Onúris disse:
"O jovem deve assumir o cartucho de Hórus e a Coroa Branca deve ser colocada sobre sua cabeça."
O Senhor Universal ficou em silêncio por um longo tempo em quieta fúria contra a Enéade. Então, Set, o filho de Nut, falou a Atum:
"Eu e ele deveremos competir e, em tua presença, eu provarei minha superioridade. Esta é a única maneira pela qual poderemos decidir quem será o Governante."
Thot disse:
"Não há necessidade de disputa, pois é fácil saber qual dos dois é o rei de direito e qual é o usurpador. Não devemos outorgar a Set o encargo de Osíris enquanto Hórus, o filho de Osíris, ainda vive."
Atum-Rá-Horakhty ficou extremamente furioso, pois seu desejo era dar o encargo a Set, o viril filho de Nut.
Onuris soltou um alto grito perante a Enéade e disse:
"O que devemos fazer?"
Então, Atum, o grande Príncipe de Heliópolis disse:
"O grande deus Banebdjedet deverá ser o juiz que decidirá entre os jovens."
Banebdjedet, o grande deus que reside em Sehel foi trazido junto a Ptah-Tatenen diante de Atum e ele lhes falou:
"Decidi vós qual dos dois jovens está certo. Que eles parem com as violências."
Então, Banebdjedet, o grande deus respondeu:
"Nós não exerceremos nossa autoridade na ignorância. Enviaremos uma mensagem a Neith, a Grande, a Mãe de Deus. Ela deverá nos aconselhar sobre como devemos agir."
Então, a Enéade disse a Thot na presença do Senhor Universal:
"Escreve uma mensagem para Neith em nome do Senhor Universal, o Touro de Heliópolis."
Thot disse três vezes:
"Assim será feito. Assim será feito. Assim será feito." 
Então ele se sentou e começou a escrever a carta:
"O Rei, Atum-Rá-Horakhty, idolatrado por Thot, Senhor das Duas Terras, o Heliopolitano, o Disco Solar que ilumina as Duas Terras com sua cor, o poderoso, manifestação viva do Senhor Universal, o Touro de Heliópolis, escrevem a Neith, a Grande, Mãe de Deus, aquela que iluminou a primeira face, aquela que vive com saúde e juventude. Seu humilde servo, em nome de Osíris pergunta: O que devemos fazer por esses dois indivíduos que vêm ao tribunal e que por ninguém podem ser julgados? Por favor, diga-nos o que devemos fazer."
Então, Neith, a Grande, Mãe de Deus, mandou uma mensagem à Enéade dizendo:
"Que o encargo de Osíris seja passado a seu filho, Hórus. Não cometam injustiças contra ele ou irei enfurecer-me de tal modo que o céu tocará o chão. O Senhor Universal, Touro de Heliópolis, para cumprir seu dever, deve retirar de Set suas posses e riquezas. Dai-lhe Anath e Astarte, suas duas filhas, e colocai Hórus no encargo de seu pai, Osíris."
A mensagem de Neith, a Grande, Mãe de Deus, chegou à Enéade quando eles estavam sentados na corte de Hórus e foi entregue nas mãos de Thot. Ele a leu na presença do Senhor Universal e da Enéade e eles declararam com unanimidade:
"Esta deusa está correta".
Mas o Senhor Universal se enfureceu com Hórus e disse a ele:
"Tu és desprezível e não serias capaz de suportar este cargo, rapaz."
Onuris e a Enéade ficaram furiosos com essa declaração. Bebon, o deus, levantou-se e disse a Atum-Rá-Horakthi:
"Teu santuário está vazio".
Atum ofendeu-se gravemente e entristeceu. Ele deitou-se de costas no chão. Então a Enéade se retirou e soltou um grande grito de protesto na face Bebon, o deus. Eles disseram-lhe:
"Vai embora! Esta ofensa que proferiste é muito grave!"
Eles adentraram em suas cabanas e o grande deus passou a noite deitado de costas muito entristecido e solitário.
Passado um tempo, Hator, Senhora de Sicômoro, veio e ficou diante de seu pai, o Senhor Universal e expôs sua vagina perante seus olhos. O Grande Deus riu dela. Ele levantou-se do chão convocou a Grande Enéade. Ele ordenou a Hórus e Set:
"Falem por si mesmos."
Set, o viril filho de Nut falou:
"Quanto a mim, eu sou Set, o mais viril entre aqueles da Enéade, pois todos os dias eu luto e derroto o inimigo de Rá na proa de sua Barca dos Milhões de Anos. Nenhum outro deus é capaz de fazê-lo. Eu deveria receber o encargo de Osíris."
Então eles disseram:
"Set, filho de Nut está correto."
Onuris e Thot gritaram em protesto dizendo:
"Enquanto o filho legítimo ainda está vivo o encargo deve ser passado ao tio?"
E Banebdjede, o grande deus, disse:
"Set é mais velho e ainda vivo. O encargo deve ser dado ao jovem rapaz?
Hórus, filho de Ísis falou:
"Isso não é bom. Estou sendo atraiçoado na presença da Enéade que me priva do encargo de meu pai, Osíris."
E Ísis ficou furiosa com a Enéade e falou:
"Por minha mãe, Neith, a deusa e por Ptah-Tatenen, com suas plumas sublimes, esses assuntos deveriam ser decididos por Atum, o grande príncipe de Heliópolis e de Khepri, que reside em sua barca."
E a Enéade respondeu a ela:
"Não tenhas raiva. O direito será dado àquele que for digno. Tudo o que disseste será feito."
Set enfureceu-se com a Enéade quando essas palavras foram ditas e falou: 
"Eu não voltarei a este tribunal da Lei enquanto Ísis nele ainda estiver. Se não a expulsardes e minha vontade não for satisfeita eu pegarei meu cetro e matarei um de vocês a cada dia." 
Atum-Rá-Horakhty então falou:
"Então devemos mudar o local das reuniões. Vos atravessareis as águas a barco até a Ilha do Meio e decidireis por lá o que precisa ser decidido. Dizei a Nemty, o barqueiro, que não leve nenhuma mulher que sequer pareça-se com Ísis."

Então, a Enéade, sem Ísis, pegou o barco guiado por Nemty e atravessou as águas até a Ilha do Meio. Lá eles sentaram e comeram  pão.

Mas Ísis transformou-se numa velha que mancava e usava um pequeno anel sinete dourado na mão. Ela  veio e se aproximou de Nemty, o barqueiro, quando ele estava sentado perto de seu barco. Ela disse a ele: 
"Eu venho até tu para que me leves em teu barco até a Ilha do Meio, pois eu venho trazendo para o jovem rapaz que lá está uma tigela de mingau. Ele está negociando gado naquela ilha há cinco dias e já está com fome."
Ele respondeu: 
"Infelizmente eu tenho ordens de não carregar nenhuma mulher até a Ilha."
E ela lhe disse: 
"Eu sei que, na verdade, tu recebeste ordens de não levar Ísis." 
Ele falou: 
"O que podes dar-me para que eu leve-te até a Ilha do Meio?" 
Ísis disse: 
"Darei-te este bolo." 
O barqueiro disse: 
"E para quê eu vou querer um bolo? É em troca de um bolo que eu devo contrariar as ordens que me foram dadas de não levar nenhuma mulher até a Ilha do Meio?"
E ela lhe disse: "Então darei-te este anel sinete de ouro que está em minha mão." 
Então ela deu-lhe o anel sinete e ele a levou até a Ilha do Meio.

Enquanto andava por entre as árvores, Ísis olhou e viu os da Enéade sentados comendo pão na presença do Senhor Universal em seu pavilhão. Set a viu quando ela se aproximou e ela, usando suas habilidades nas artes da magia, transformou-se numa donzela de tal beleza que nunca havia sido vista em toda a terra. Set a desejou com grande lascívia.
Ele se levantou de onde estava, afastou-se da grande Enéade e aproximou-se para possuí-la, pois ninguém além dele a havia visto. Parou atrás de um Sicômoro  (árvore) e chamou:
"Estou aqui contigo, linda donzela." 
E ela respondeu: 
"Ajuda-me, grande senhor. Sabe que eu era a esposa de um criador de gados com o qual tive um filho. Mas meu esposo morreu e o rapaz começou a cuidar do gado do pai. Então, um estranho veio e estabeleceu-se no meu estábulo. Ele disse ao meu filho que o subjugaria e confiscaria o gado de seu pai e o expulsaria de suas terras. Agora venho pedir-te aconselhamento e proteção."
E logo Set disse a ela: 
"Enquanto o filho de um homem ainda está vivo seu gado não deve ser dado a um estranho."
Assim, Ísis transformou-se numa pipa e voou ficando agarrada no topo de uma Acácia. Ela chamou por Set e disse a ele: 
"Envergonha-te. Foi de tua própria boca que saíram essas palavras. Foste julgado por tua própria astúcia. Quais argumentos terás agora?" 
Ele envergonhou-se e foi até onde estava Atum-Rá-Horakhty que lhe perguntou:
"O que te incomoda?"
Set respondeu:
"Aquela mulher perversa veio até mim novamente. Ela enganou-me ao transformar-se numa linda donzela diante de meus olhos. Ela me disse: 'Saibe que eu era a esposa de um criador de gados com o qual tive um filho. Ele morreu e o rapaz passou cuidar do gado do pai. Um estranho abrigou-se no meu estábulo e eu o alimentei. Depois de alguns dias o estranho falou com meu filho: 'Eu o derrotarei e confiscarei o gado de teu pai e ele será meu.' Foi isso que ela me contou."
E Atum-Rá-Horakhty perguntou: 
"E o que respondeste?" 
E Set falou: 
"Eu disse que enquanto o filho de um homem ainda está vivo o gado não deve ser dado a um estranho. E eu falei que a face deste invasor deveria ser golpeada com uma vara, ele deveria ser expulso. O filho deveria colocado no encargo do pai."
 Então Atum-Rá-Horakhty disse a ele: 
"Veja bem, tu acabaste por julgar a ti mesmo. Quais argumentos poderás apresentar agora?" 
E Set falou: 
"Nemty, o barqueiro, deve ser trazido e severamente castigado. Devemos perguntar-lhe: 'Porque a trouxeste até aqui?"
Então, Nemty, o barqueiro, foi trazido perante a Enéade e as partes da frente de seus pés foram decepadas. Ele abdicou à posse do outro para sempre na presença da Grande Enéade dizendo: 
"Por minha causa o ouro deve tornar-se uma abominação em minha cidade." 
Então a Enéade foi de barco até a margem oeste e se sentaram na montanha.

 À tarde Atum, o Heliopolitano falou Enéade:
 "O que fazem sentados aí? Os dois jovens passarão a vida inteira no tribunal? Quando minha mensagem chegar colocai a Coroa Branca na cabeça de Hórus, filho de Ísis, e conduzi-lo ao encargo de seu pai, Osíris."
Com isso Set ficou terrivelmente furioso. A Enéade disse a ele: 
"Por que ficaste tão furioso? Pensas que as coisas não deveriam ser feitas do modo como Atum, o Heliopolitano ordena?" 
Então a Coroa Branca foi colocada na cabeça e Hórus, filho de Ísis. 
Set, ainda mais furioso, gritou na cara da Enéade dizendo: 
"Mesmo eu, o irmão mais velho, estando vivo, ainda assim o encargo deve ser dado ao mais jovem? A Coroa Branca deve ser removida da cabeça de Hórus, filho de Ísis, e ele deve ser jogado na água para que nós possamos competir pelo encargo do Rei."
E Atum concordou.
Então set falou com Hórus: 
"Vem, transformemo-nos em hipopótamos para submergir nas águas profundas no meio do mar. Aquele que não conseguir sobreviver debaixo d'água por três meses inteiros será o perdedor e o encargo não será dado a ele."
Então os dois mergulharam.
Ísis sentou-se e chorou dizendo: 
"Set matará meu filho."
Então ela trouxe um novelo de fios e amarrou uma pena de cobre fazendo-a ficar na forma de um arpão. Atirou o arpão na água no na intenção de acertar Set, mas o cobre atingiu o corpo de Hórus e ele soltou um grito de dor dizendo: 
"Liberta-me Ísis, minha mãe. Eu peço para que teu cobre deixe-me em paz. Sou eu, Hórus, teu filho!" 
E Ísis gritou dirigido-se ao arpão de cobre: 
"Sai dele e vê, ele é meu filho, Hórus. É meu filho!"
E o cobre saiu do corpo de Hórus.
Então ela atirou novamente o arpão na água e atingiu o corpo de Set. Ele gritou dizendo:
"O que foi que eu fiz contra ti, irmã Ísis? Eu peço que teu cobre me deixe em paz! Eu sou teu irmão materno!"
Então ela sentiu uma imensa compaixão por Set. Ele a chamou dizendo:
"Você prefere ter um estranho do que seu irmão materno, Set?"
E Ísis chamou o arpão dizendo: 
"Deixa-o em paz. Este que alvejaste é o irmão materno de Ísis. É meu irmão." 
Então o arpão saiu do corpo de Set.
Hórus ficou furioso por sua mãe ter poupado a vida de seu inimigo e saiu da água com a face de uma pantera do Alto Egito. Ele voltou com sua clava que na mão. Hórus decepou a cabeça de sua mãe, levantou-a em seus braços e subiu a montanha. O corpo dela transformou-se numa estátua sem cabeça feita de sílex. 
Atum perguntou a Thot: 
"Quem é essa que chegou agora e que não tem cabeça?" 
E Thot disse a Atum: 
"Meu bom senhor, aquela é Ísis, a Grande. Hórus, seu filho, decepou sua cabeça." 
Atum gritou alto e disse à Enéade: 
"Que Hórus seja severamente punido por esse crime!" 
A Enéade subiu as montanhas para procurar Hórus, filho de Ísis.

Naquele momento Hórus havia se deitado sob uma árvore de shenusha nas terras do oásis. Set o encontrou, imobilizou-o, derrubou-o de costas no chão da montanha, removeu seus dois olhos e os enterrou na montanha para que iluminassem a terra. Os dois olhos transformaram-se em dois touros que se transformaram em duas flores de lótus. Set, então, foi até Atum-Rá-Horakhty e disse-lhe em falsidade:
"Não encontrei Hórus."
Então, Hathor, Senhora de Sicômoro do Sul partiu e encontrou Hórus deitado e chorando no deserto. Ela capturou uma gazela e tirou seu leite e então disse a ele: 
"Abra os olhos para que eu possa colocar este leite neles."
Ele abriu os olhos e ela colocou um pouco do leite na cavidade esquerda e um pouco na direita.
Novamente ela disse:
"Abra os olhos." 
Ele abriu e ela viu que eles estavam curados.

Hator foi a Atum-Rá-Horakhty e contou:
"Eu encontrei Hórus depois que Set havia retirado seus olhos, mas eu o curei. Veja, ele retornou."
A Enéade disse: 
"Que Hórus e Set sejam convocados para que possam ser julgados novamente." 
Então eles foram trazidos diante da Enéade. O Senhor Universal disse para Hórus e Set:
"Obedecei minhas ordens. Uma régua deve ser feita. Comei e bebei juntos para que tenahmos paz, pois estamos cansados de violências."
E Set falou a Hórus: 
"Vem, vamos fazer uma trégua em minha casa."
Hórus disse três vezes: 
"Assim será. Assim será. Assim será."

Então, ao por do sol, uma cama foi preparada para eles e os dois se deitaram. Durante a noite, Set fez seu pênis ficar ereto e o colocou entre as coxas de Hórus. Mas Hórus colocou a mão entre as coxas e pegou o sêmen que Set queria derramar dentro dele. Depois ele foi contar a sua mãe:
"Ajuda-me, minha mãe. Vem ver o que Set fez comigo." 
Ele abriu a mão e mostrou o sêmen de Set. Ísis deu um grito alto, fez aparecer uma faca de cobre e cortou a mãe de Hórus. Então ela fez um unguento perfumado e o aplicou no pênis de Hórus. Ela o fez ficar ereto, inseriu-o numa jarra e fez o sêmen de Hórus derramar-se lá dentro.
Pela manhã, Ísis caminhou pelos jardins de Set carregando o sêmen de Hórus. Ela perguntou ao jardineiro: 
"Qual tipo de vegetal Set come em sua companhia?"
E o jardineiro falou: 
"O único vegetal que ele come em minha companhia é o alface." 
Então, Ísis derramou o sêmen no alface.
Set, como sempre fazia, chegou em casa de seus afazeres, comeu o alface e foi fecundado com o sêmen. Ele foi até Hórus e disse: 
"Vem, vamos até o tribunal para mais uma audiência." 
E Hórus respondeu três vezes: 
"Eu irei. Eu irei. Eu irei."
Os dois foram ao tribunal e ficaram na presença da Grande Enéade que lhes ordenou:
"Falem por si mesmos." 
Set disse: 
"Que seja eu o agraciado com o encargo do Governante, pois em Hórus eu realizei um ato de masculinidade."
A Enéade gritou. Eles xingaram e cuspiram na face de Hórus, mas Hórus riu deles. Ele fez a seguinte declaração: 
"Tudo o que Set diz é mentira. Que o sêmen dele seja convocado para que possamos ouvir de onde ele responderá. Depois convoquemos o meu e veremos de onde ele responderá."
Então, Thot, Senhor da Escrita e escriba da Verdade, colocou sua mão no ombro de Hórus e chamou:
"Sai, oh sêmen de Set." 
E a resposta veio das águas no interior do pântano. 
Thot pôs a mão no ombro de Set e chamou: 
"Sai, oh sêmen de Hórus."
Então veio a resposta de dentro de Set. 
"Por onde devo sair?" 
Thot respondeu:
"Sai pela orelha." 
E o sêmen respondeu: 
"Como posso sair pela orelha sendo eu uma semente divina?"
Então Thot disse
"Sai então pelo topo da cabeça."
E um disco solar dourado emergiu da cabeça de Set. Ele ficou extremamente furioso e levantou a mão para agarrar o disco, mas Thot o pegou primeiro e colocou-o como uma coroa em sua própria cabeça. E a Enéade disse: 
"Hórus está certo e Set está errado."
Furioso, Set soltou um grito de raiva e disse:
"Hórus está certo e Set está errado? Ele não deve ser coroado antes de mais um desafio. Construamos construir barcos de pedra e realizemos uma corrida. Aquele que vencer deverá ser agraciado com o encargo do Governante." 
E assim foi feito.

Hórus construiu para si um barco, mas não usou pedra. Ele o fez de pinho, cobriu-o com uma pasta de gipsita para que parecesse pedra. Lançou-o na água ao anoitecer sem que ninguém o visse.
Set viu o barco de Hórus e pensou que era feito de pedra. Ele foi até uma montanha, cortou seu topo e construiu para si um barco de pedra de 138 cúbitos. Eles embarcaram em seus barcos na presença da Enéade e o barco de Set afundou. 
Ele ficou furioso, transformou-se num hipopótamo e afundou o barco de Hórus. Este pegou seu arpão de cobre e o atirou no corpo de Set. Neste momento a Enéade gritou: 
"Não o machuques!"
Hórus puxou seu arpão de volta, guardou-o em seu barco e velejou seguindo a correnteza até a cidade de Saís para falar com Neith, a Grande.
Ele a disse o seguinte:
"Que um julgamento seja feito entre mim e Set, pois já faz oitenta anos que comparecemos ao tribunal. Eles foram incapazes de fazer uma escolha e Set não conseguiu provar que está certo. Apesar de eu já ter vencido mil vezes ele ainda não aceita a derrota. Eu o combati em diversos duelos e o venci em todos."
Neith mandou uma mensagem à Enéade relatando as reclamações de Hórus. A Enéade então disse a Shu, filho de Rá: 
"Hórus, filho de Ísis está correto em tudo o que diz".
Thot disse ao Senhor Universal: 
"Que uma mensagem seja mandada a Osíris para que ele faça o julgamento." 
Então Shu, filho de Rá, falou: 
"O que Thot disse deve ser feito." 
O Senhor Universal disse a Thot: 
"Senta-te e compõe uma mensagem para Osíris para que saibamos o que ele tem a dizer."

Thot sentou-se e escreveu a Osíris uma mensagem com as seguintes palavras: 
"Oh Osíris, Grande Touro, Leão Solitário, criador humanidade, Rei do Alto e Baixo Egito, filho de Ptah, Pai da Enéade. Por favor, escreva-nos dizendo o que devemos fazer por Hórus e Set para que não exerçamos nossa autoridade com ignorância."
A carta logo chegou a Osíris, o Rei, filho de Rá, Valoroso Mestre. Ele soltou um grito depois que a carta foi lida em sua presença e a respondeu muito rapidamente mandando uma mensagem para onde o Senhor Universal estava reunido com a Enéade. Ela dizia:
"Por que meu filho, Hórus, deveria ser preterido? Fui eu quem deu poder a vós e fui eu sozinho quem criou a cevada e o trigo para o sustento dos deuses assim como o gado que os segue, coisas que nenhum outro deus ou deusa teve vontade de fazer."
Então a carta de Osíris chegou onde Atum-Rá-Horakhty estava com a Enéade, no Monte Branco em Xois. Ela foi lida em sua presença e ele disse: 
"Que esta carta seja respondida prontamente a Osíris. Nós lhe diremos o seguinte: 'Mesmo se tu não existisses e se não houvesses nascido, a cevada e o trigo ainda existiriam."
A mensagem do Senhor Universal chegou a Osíris e foi lida em sua presença. Então, ele novamente escreveu a ele e disse o seguinte:
"Tudo o que fizeste é extremamente bom, oh Grandes Mestres da Enéade, mas a justiça acaba de morrer e afundar ao submundo. Por favor, considerai sabiamente a situação, pois, sabei, a terra em que habito está cheia de criaturas selvagens que não temem nenhum deus ou deusa. Eu os libertarei e eles buscarão os corações daqueles que cometerem injustiças e eles serão trazidos a mim. Lembrai vos da razão pela qual estou aqui no oeste, no submundo, enquanto estais  aí, do lado de fora. Quem entre vós é mais poderoso que eu? Vede só, vós inventais a injustiça. Quando Ptah, o Grande, criou o céu ele disse às estrelas: 'É no oeste onde vive o rei Osíris que deveis descer todas as noites.' Mais tarde ele disse a mim: 'Agora, além das estrelas, tanto deuses quanto príncipes e plebeus irão descansar no lugar onde estás
Logo a carta de Osíris chegou ao lugar onde o Senhor Universal estava com a Enéade. Thot recebeu a mensagem e a leu na presença de Atum-Rá-Horakhty e da Enéade. Eles disseram:
"O Grande e Valoroso Mestre está duplamente correto em tudo o que diz." 
E Set falou aquiescendo: 
"Então vamos até a Ilha do Meio para que o reinado seja passado."
Todos foram à Ilha. Por ordem de Atum, Ísis trouxe Set algemado. Atum disse a ele:
"Por que não aceitas nossos juízos e tentas usurpar o lugar de Hórus?" 
Set respondeu:
"Não mais farei isto meu bom senhor. Que Hórus, filho de Ísis seja chamado e agraciado com o encargo de seu pai.
Hórus, filho de Ísis, foi trazido e a Coroa Branca foi colocada sobre sua cabeça e ele foi colocado no encargo de seu pai, Osíris. Todos dissertam a ele:
"Tu és o bom Rei do Egito. Tu és o bom senhor de toda a terra por toda a eternidade." 
Então Ísis gritou de alegria por seu filho dizendo:
 "Tu és o Rei. Meu coração está cheio de alegria. Tu iluminas a terra com tua presença."
Então, Ptah, o Grande disse: 
"O que faremos com Set agora que Hórus foi colocado na posição de seu pai?" 
Atum-Rá-Horakhty disse: 
"Que Set, filho de Nut seja entregue a mim para que viva comigo como um filho. Quando em fúria ele lançará trovões no céu e será temido."

Atum-Rá-Horakhty e disse: 
"Hórus, filho de Ísis, ergueu-se como Governante. Alegrai-vos em todas as terras."
A Enéade estava em festa. Seus corações estavam satisfeitos e toda a terra exultante ante a visão de Hórus, senhor de Busiris.



quarta-feira, 26 de agosto de 2015

A Mitologia Egípcia

Embora existam inúmeras divindades na mitologia egípcia, um número cada vez maior de estudiosos dos antigos mitos está entrando em acordo ao dizer que a religião dos antigos egípcios era, na verdade, uma espécie de monoteísmo. A crença difundida de que as antigas histórias e as imagens representadas nos templos representavam diferentes entidades supremas (deuses e deusas) nada mais é do que uma confusão causada pela tradução da palavra "neter" que os antigos usavam para se referir às forças cósmicas. Cada um  dos "deuses" venerados nas escrituras e na vida cotidiana egípcias eram originalmente chamados de neteru (plural de neter). No nosso conceito ocidental falta uma palavra  que se encaixe melhor nesse conceito de "neter" então usamos a palavra "deus", embora ela cause certo incomodo por se confundir com o conceito ocidental de Deus.

Cada neter, ou deus egípcio, representa uma função, uma característica, um princípio específico da Força Suprema à qual os egípcios não deram nenhum nome. Esta Força, essa Inteligência, esse Princípio Cósmico que a tudo criou e a tudo permeia é o que realmente se aproxima do conceito de Deus ao qual estamos familiarizados no ocidente. (A palavra neter também é, segundo alguns filólogos a origem da palavra "natureza").

É importante salientar aqui que, embora os egípcios representassem os neteru utilizando formas antropomórficas e de animais, filosofia egípcia não se baseava na crença de que tais criaturas realmente existissem na forma como eram representadas. Essas ilustrações não passam de símbolos escolhidos com cuidado para falar sobre os fundamentos dos princípios específicos aos quais se referem. Por exemplo: , por representar a origem Consciência Suprema, era mostrado carregando o sol na cabeça, pois, se a Luz é o símbolo da consciência, então não há melhor símbolo para a origem da consciência suprema do que o Sol, a maior fonte de luz que temos. A cabeça de falcão era usada pois esta criatura possui outro elemento do que os egípcios chamariam de "natureza solar": uma criatura que voa a grandes alturas, que enxerga longe, que "tudo vê", etc. Hórus também era representado com cabeça de falcão, mas sem o Disco Solar, pois ele evocava a imagem do senhor dos céus, mas não do sol. O falcão, quando visto voando majestosamente nos céus, senhor de seus domínios, evoca a ideia de que o céu é seu território natural.

O corpo humano nas imagens dos neteru indicava que aquele princípio estava sendo representado como era visto do ponto de vista pessoal, subjetivo e imperfeito inerente à condição humana.

Outro exemplo: quando se fala das Águas Primordiais, do Oceano do Caos que existia no Princípio, não se está falando de um oceano físico que existiu certo dia num determinado lugar. As propriedades de um oceano físico e real são meramente o reflexo das características essenciais do Oceano Ideal no sentido platônico, ou seja, infinito, indivisível, desconhecido e inescrutável. Essa eram as ideias que verdadeiramente estavam sendo expressadas com o uso dos símbolos.

Existem diferentes versões para cada passagem das histórias mitológicas do Egito encontradas em diversas fontes como o Texto das Pirâmides, o Livro dos Mortos, as inscrições nos templos e tumbas,  etc. As versões também variavam com o tempo, afinal de contas, são histórias que foram contadas repetidamente por mais de 5 mil anos.

As diferentes formas como eram contadas as histórias, apesar de serem, por vezes, conflitantes, eram também complementares, e, utilizando-se de um esforço para estabelecer uma ordem cronológica para os eventos, podem ser reunidas na forma de uma síntese que englobe todos os diferentes aspectos das diferentes cosmologias a começar na Origem: Os mitos de criação.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Os Mitos de Criação do Egito Antigo

Diferentes Cosmogonias

Um dos mitos mais importantes, senão o mais importante, de toda a mitologia egípcia é aquele referente à criação do Universo. Porém, grande parte dos mitos egípcios conta com duas ou mais versões e há vários detalhes que se tornam confusos devido à variedade de formas de se contar a mesma história. Quando se fala de cosmogonia egípcia, há quatro versões principais que eram correntes em quatro importantes cidades  do antigo Egito: HermópolisHeliópolis, Tebas e Mênfis.

Essas versões, apesar de diversas, são, na verdade, focadas em diferentes aspectos do mesmo evento e podem ser vistas, algumas vezes como conflitantes, mas também são complementares. Isso se deve ao fato de que tanto os mitos quanto os deuses neles descritos, são intercambiáveis. Às vezes um grupo de deus descrito num certo mito difundido numa determinada época e lugar pode ser substituído por uma outra entidade única que represente todos eles de uma vez só quando esse mito é contado em outra versão numa outra época e outro lugar. para que essa característica da "intercambialidade" não torne o entendimento da mitologia total um tanto confusa à, deve se pensar nos diferentes mitos como diferentes maneiras de se contar uma mesma história ou diferentes formas de se explicar a mesma coisa e que, dependendo da época e do lugar, as pessoas preferiam uma forma ou outra.

Heliópolis

A maior fonte pela qual é conhecida a chamada "Cosmogonia de Heliópolis" são os Textos  das Pirâmides que são considerados os escritos religiosos mais antigos já encontrados. São escrituras cravadas nas pedras das pirâmides de Saqqara por volta de 2400 AC.

Um pedaço dos chamados Textos das Pirâmides.

Representação do benben
 exposta no museu do Cairo.
De acordo cosmogonia Heliopolitana, no início havia apenas o caos indiferenciável conhecido como Nun (abismo). Nun é descrito como um oceano inerte, infinito e escuro.

O primeiro evento ocorrido neste oceano foi o surgimento de um monte em forma de pirâmide chamado benben, também conhecido como Ovo Cósmico. Quando o Sol, representado pela figura de , nasceu pela primeira vez e tocou o benben a entidade conhecida como Atum passou a existir. Atum-Rá "criou a si mesmo", "tonou-se a si mesmo".

Logo que surgiu, Atum, a partir de si mesmo, criou seus quatro descendentes, Shu, Tefnut, Geb e Nut. Este momento ficou conhecido como Zep Tepi, A Primeira Ocasião, ou o Primeiro Evento.

De Geb e Nut nasceram quatro filhos Osíris, Ísis, Set e Néftis.

O grupo formado por oito deuses era chamado de a Enéade de Heliópolis. Eles eram Atum-Rá, Shu, Tefnut, Geb, Nut, Osíris, Ísis, Set e Néftis.  



Atum e Rá são uma entidade dupla que segue o princípio místico numérico de que o Um deve se tornar Dois. Eles são um só ser, mas possuem dois nomes pois devem ser entendidos como dois aspectos opostos desse ser: sujeito e objeto, isto é, aquele que conhece e aquele é conhecido.

Atum

é o Sol. Ele  surgiu pela primeira vez mundo quando saiu do monte benben e subiu para espalhar a Luz no mundo. Neste contexto, a Luz deve ser entendida como a Quintessência da existência, ou seja, Consciência. era representado como um ser com cabeça de falcão carregando o Disco Solar rodeado pela serpente Ouroborus como coroa, sendo que o Ouroboros, neste caso, representa exatamente a natureza cíclica ou fechada do ser que conhece a si mesmo e o sol, sendo a fonte definitiva da Luz/Consciência.

Se é o sujeito, Atum é o objeto (Atum surgiu quando a luz de tocou o benben, ou seja, quando se se tornou consciente dele). Às vezes se usa o nome de Atum, às vezes se usa o nome de , dependendo do contexto do acontecimento narrado.

Atum-Rá é a forma pessoal do universo em oposição à forma impessoal e inconsciente que era Nun. Ele representa o início da consciência e da existência. Ele é transformação do Um em Dois.

"Atum é o Ba de Nun."

Hermópolis

Nun é aqui representado como um ser feito
de água que possui tanto atributos masculinos
quanto femininos (repare que ele tem um ceio).
Ele segura o símbolo da Folha de Palmeira
que significa vida eterna e faz alusão a sua
vasta idade.
Alguns traços da cosmogonia de Hermópolis são encontradas nas mesmas fontes daquelas da de Heliópolis. Esta cosmogonia dava especial atenção ao que aconteceu antes da criação, na natureza do Oceano Primordial de Nun.  Seu panteão de criadores era um grupo de oito entidades chamados de a Ogdóade.

Os oito princípios da Ogdóade firmavam quatro casais. Os seres masculinos são representados com cabeças de sapo e as femininas com cabeça de serpente. Cada casal representa um diferente aspecto daquele estado primordial do ser:
  • Huh e Hauhet representam as extensões infinitas de Nun;
  • Kuk e , Kauket, personificam a escuridão completa e a inconsciência daquele estado do ser;
  • Amon e Amonet, representam a natureza oculta e inescrutável de Nun em contraste com o mundo tangível dos vivos;  
  • Por último havia o próprio Nun e Naunet que representavam o oceano em si..
Mas o principal deus cultuado na cidade era Thot.

Thot
Thot era chamado e o "vizir de ". O oceano de Nun era a alma de Toth e ele, usando seus dons da sabedoria ele criou as palavras e deu voz à vontade de que foi o que permitiu ao Universo tomar existência. Rá era o criador, mas ele só podia criar atravez de Thot que era quem "traduzia" sua vontade em "palavras" propiciando uma existência objetiva.

Segundo algumas fontes, Thoth é um ser que gerou a si mesmo, como Atum-Rá, segundo outras ele era filho de . Ele foi aquele que, posteriormente, criou as artes, a matemática, as linguagens humana, arquitetura, engenharia e as ciências além de exercer papel preponderante das mediações de conflitos entre o deuses e seres humanos. Ele era também associado À lua e à marcação do tempo sendo representado como um homem com cabeça de Íbis (uma ave nativa do Egito) ou, mais raramente, como um babuíno. Sua contraparte feminina era Seshat e sua esposa era Maat.

O monte benben, segundo a cosmogonia de Hermópolis, surgiu quando as oito divindades da Ogdóade. Ou, em outra versão no oceano de Nun boiava uma solitária flor de lótus. Os membros masculinos da Ogdóade ejacularam nela e ela se fechou. Quando se abriu novamente de dentro dela nasceu na forma de uma criança criadora de tudo.
Os oito membros da Ogdóade com cabeças de rã e serpente seguidos da imagem de Atum-Rá nascido da flor de lótus simbolizando o nascimento a partir do caos.(Os hieróglifos e as imagens egípcias devem ser lidos da direita para a esquerda.)



   

Mênfis 

A chamada Teologia de Mênfis chegou até nós através de uma inscrição na Pedra de Shabaka que é uma laje de granito com escritos hieróglifos.
Ptah portando seus símbolos.


Esta cosmogonia idolatra a figura criadora de Ptah. Ele era o patrono dos artistas e artesãos e teria criado o universo com suas habilidades artísticas. Era chamado de pai dos deuses da pré-criação (Ogdóade), ou seja, ele era o criador de Nun. Aos mesmo tempo ele foi aquele que quebrou o ovo primordial do benben e de lá surgiu para criar o mundo como o conhecemos. O processo do zep tepi seria a "metamorfose de Ptah" de um ser inexistente para um ser existente que criou a si mesmo.

Ele, então, com uma palavra, criou a Enéade (Atum, Shu, Tefnut, Geb, Nut, Osíris, Ísis, Set e Néftis). A palavra falada foi o que deu origem a tudo. O que surgia em seu coração ele criava através da língua.

Sua esposa era Sekhmet e seu filho era Nefertem.

Essa cosmogonia engloba as outras duas. Sua diferença é que ela acrescenta "um grau" na hierarquia dos acontecimentos, isto, é tudo que aconteceu foi comandado por Ptah. Ele é Num, Atum e Rá.

Em suas representações, Ptah é mostrado como um homem de pele verde envolto num tecido branco, como se estivesse mumificado, mas , na verdade ele está aprisionado.. Em suas mãos ele segura três símbolos combinados em um só: o bastão Was, o Ankh e o pilar Djed (estabilidade, vida e poder). Ele fica em pé sobre um objeto na forma do hieróglifo que significa Maat que é a ordem, ou a Lei universal em oposição ao Caos primordial. Assim como os ferreiros, que são seus representantes na terra, Ptah moldou o universo utilizando os quatro elementos para criar tudo que existe.

Tebas

A cosmogonia mais tardia entre as quatro citas é a de Tebas onde Amon, uma entidade presente na Ogdóade original, toma o lugar de Atum-Rá como entidade criadora.

Amon, Amen,
ou Amun
Seu nome faz referência ao desconhecido e ao impenetrável. Era dito que ele transcendia todos os outros deuses e que "existia além dos céus" e era "mais profundo que o submundo". Sua verdadeira natureza era mistério até mesmo para os outros deuses. Era representado como um homem usando um barrete (capuz sarcedotal) grandes plumas na cabeça.
Mut é a contraparte feminina de Amon. Seu símbolo é uma mulher com a coroa dupla e um abutre na cabeça. O nome"mut" significa "mãe". Essa palavra foi a percursora do inglês "mother", do   alemão "mutter", etc.

Na época da XVIII, a cidade de Tebas assumiu grande importância político-religiosa e por isso os sacerdotes daquela cidade, usando do poder que haviam adquirido, elevaram o deus patrono da cidade ao status de criador de todas as coisas e o nome de Amon (os Amen), começou a ser adicionado ao nome do faraó. Com o tempo, o poder religioso do culto a Amon acabou adquirindo mais poder do que o próprio faraó na sociedade egípcia e, pela primeira vez, começaram a ser desenvolvidos conceitos dogmáticos e monoteístas. Antes os todos os deuses eram considerados como representantes de propriedades e características de única entidade inominável. Agora essa entidade tinha nome: Amon, o deus de um milhão de faces.

domingo, 23 de agosto de 2015

Shu e Tefnut, Geb e Nut

Shu e Tefnut nasceram da vontade de Atum num de auto procriação, já que, apesar de ser uma entidade masculina, ele ainda possuía dentro de si a sua contraparte feminina original: Naunet.

Tefnut
Shu
As versões de como Atum criou seus dois filhos variam bastante. É dito que com um espirro ele criou Shu e depois botou Tefnut como se fosse um ovo. Essa versão faz trocadilhos com os nomes dos deuses. Outra versão diz que Atum se masturbou, sendo que a mão usada no ato representaria a parte de sua natureza feminina. Existem imagens mostrando Atum com o próprio pênis na boca formando uma variante do Ouroboros representando o ato de auto-procriação. Há ainda outros textos que dizem que ele casou-se com sua sombra, a deusa Iusaaset e que ela era a avó de todos os deuses. Também é dito que Atum-Rá retirou seu próprio coração e o atirou no ar onde ele se dividiu e formou seus filhos.

Shu é associado ao ar e aos ventos que era comumente representado usando uma coroa de penas de avestruz. Tefnut, sua irmã/esposa era associada à umidade e à chuva e era mostrada como uma mulher com cabeça de leoa.

Diz a lenda que, certa vez, Shu e Tefnut saíram para se aventurarem no espaço vazio e se perderam. Rá, preocupado, mandou seu olho para procurá-los. Quando eles retornaram, ficou tão feliz que chorou. De suas lágrimas nasceram os primeiros seres humanos.

Shu e Tefnut tiveram dois filhos: Geb e Nut.

Geb
Nut
Geb e Nut são os filhos de Shu e Tefnut.

Geb é associado à terra (matéria) e é representado às vezes como um homem com cabeça de serpente (criatura rastejante que possui propriedades terrenas), ou como um homem carregando um pássaro na cabeça, ou ainda como um homem deitado no chão sob Nut.

Nut é associada ao céu (espírito) em oposição à terra. Ela é representada, às vezes, como uma mulher com um hieróglifo sobre a cabeça que significa jarro de água.  ou como uma mulher enorme estendida sobre Geb.

Quando os dois se casaram, Atum temeu que seus futuros filhos pudessem querer tomar seu trono e proibiu que Nut tivesse filhos em qualquer dia do ano. Ela então ela foi procurar a ajuda de Toth.


Khonsu
Para ajudar Nut, Toth resolveu desafiar seu amigo Khonsu para um jogo de Senet.  

Khonsu era filho de Amon e Mut. Ele é representado tendo cabeça de falcão como Rá, mas, ao invés de usar o sol acima da cabeça, ele usava a Lua, astro com o qual ele é relacionado. Outras vezes era mostrado como um homem mumificado portando a lua na cabeça. É o deus do tempo. (A pronuncia de seu nome Khons ou Cons, mais tarde seria importada pelos gregos que o transformariam em Cronos, deus grego do Tempo.)

Toth apostou com ele: a cada partida que ele ganhasse, Khonsu deveria lhe dar um pouco de sua luz. Quando terminaram o jogo, Toth havia ganhado luz suficiente para fazer cinco dias e, como esses dias não faziam parte do ano, Nut pode usá-los para ter seus filhos: OsírisÍsis, Set e Néftis.

Nut (acima) e Geb (deitado no chão) separados por Shu.
Quando Atum soube disso ele ficou tão furioso que obrigou Shu a separá-los.

Então, o céu (Nut) foi separado da terra (Geb) pelo ar (Shu). Tefnut, sendo a esposa de Shu, é às vezes retratada ajudando seu marido a separa os dois. Ela é a umidade que permeia o ar entre o céu e a terra e se manifesta na forma de chuva. Em épocas de seca, dizia-se que Tefnut havia ido embora, ou que havia brigado com Shu.

A separação do céu da terra, naturalmente, não deve ser visto de forma literal. Neste contexto o céu é o espírito e a terra é a matéria. Nos poucos momentos em que espírito e matéria se uniram nasceram quatro dos principais deuses existentes, mas, a partir desse momento, todos os seres seriam obrigados a viver num universo onde espírito e matéria estão separados para pagar o "pecado original" que Shu e Tefnut cometeram ao contrariar as ordens de Atum.

Posteriormente os cinco dias que Toth havia ganhado foram adicionado aos 360 dias do ano que passou a ter 365 dias.



quarta-feira, 19 de agosto de 2015

A História de Osíris, Set e Hórus

 Os filhos de Geb e Nut foram Osíris, ÍsisSet e Néftis.

Osíris

Osíris
Osíris se casou com sua irmã Ísis Set se casou com sua irmã Néftis. 
Osíris está associado com a vida após a morte e a ressurreição. Ele é comumente representado como um homem mumificado em cima do símbolo de Maat usando o Atef que combinava a coroa branca do alto Egito com duas penas de avestruz. Em suas mãos estavam o mangual e o cajado reais, símbolos da autoridade do faraó. A cor verde de sua pele simbolizava a ressurreição dos mortos e fazia alusão ao verde que surgia depois das épocas de seca e depois das cheias do Nilo que era quando as terras "voltavam à vida após o período de morte". Embora a versão mais difundida seja a que ele era filho de Geb e Nut, uma versão mais obscura sugere que ele era filho de Rá.

Osíris é um dos deuses mais importantes da antiga religião egípcia. Seu nome significa "muitos olhos"

Set

Set
Set é o deus que representa o ar seco do deserto e os períodos de seca eram a ele atribuídas. Ele era também associado à violência, às tempestades do deserto e aos estrangeiros. Era representado como um animal desconhecido que os egiptólogos chamam de "animal de Set" que pode ser alguma animal que existiu antigamente e agora está extinto ou a mistura de vários animais ou, ainda, um animal mítico. Outras vezes ele é personificado pela figura do hipopótamo, criatura selvagem e violenta.
Set em sua forma totalmente animal

Apesar de ser o inimigo de Osíris e personificar, até certo ponto, o mal e a desordem, Set não era uma entidade totalmente maligna e não personificava as forças do caos, como alguns intérpretes das mitologia alegam.Segundo o mito, todas as noites, quando (o sol) descia ao submundo, Set lutava contra a serpente Apófis que personificava as verdadeiras forças do caos para impedir que ela destruísse a Ordem das coisas.

Ísis e Néftis


Ísis
Néftis
Existem muitas semelhanças entre Ísis e Néftis e, ao contrário de seus irmãos, sua relação sempre foi harmoniosa.
As duas eram chamadas de "Grande Mãe" e os atributos e funções de ambas eram muito parecidos. Certas versões da história fazem confusão com os pares e colocam Néftis como esposa de Osíris e Ísis como esposa de Set. 

Ísis era representada como uma mulher usando a figura de um trono no alto da cabeça, símbolo da rainha. Várias vezes ela aparece com asas nos braços e  também com chifres que carregam o disco solar vermelho no meio.

Néftis era mostrada como uma mulher usando na cabeça a figura de uma casa com um cesto em cima, algo parecido com uma jarra, símbolo da feminilidade. Outras vezes ela aparece com asas nos braços iguais aos de sua irmã.
Aqui os símbolos de Ísis e Néftis e são invertidos. Ísis está à esquerda (como ela era rainha, o trono encimava sua cabeça). Néftis está à direita com a figura em forma de jarra na cabeça, mas aqui ela possui as asas que são mais comumente atribuídas a Ísis. No meio das duas está Osíris antes de ser mumificado.

O Complô de Set

Como Osíris era o primogênito de Geb, ele e Ísis tornaram-se o rei e rainha da Kemet (nome original das terras do Egito) quando Geb abdicou ao trono.

Naquela época os seres humanos levavam uma vida primitiva na pré-história. Sob o reinado de Osíris a humanidade aprendeu os fundamentos da civilização. Ele levou aos povos do neolítico o conhecimento das bases da agricultura, domesticação de animais, o culto à natureza do universo (neteru/deuses) e lhes deu leis. Toth agraciou a humanidade com suas criações: matemática, escrita, arquitetura, artes, ciências engenharia, etc. Logo o povo de Kemet atingiu altos graus de sofisticação e prosperidade.

Porém, Set, que governava os desertos alimentava uma grande mágoa contra seu irmão, Osíris. Os motivos de seu ressentimento eram vários. De acordo com os Textos das Pirâmides, além de almejar o trono, Set também queria se vingar por Osíris ter mantido relações sexuais com sua esposa/irmã Néftis, o que resultou no nascimento de Anúbis (dependendo da versão ela seduziu ou foi seduzida por Osíris ). Set também queria revanche por um chute que teria levado de seu irmão.

Com a ajuda de setenta e dois conspiradores, bolou um plano para eliminá-lo.

Set convidou Osíris para um banquete. No decurso da festa ele apresentou um sarcófago e disse aos convidados que era um presente que ele daria àquele que nele coubesse. Um a um, os comparsas de Set foram entrando no sarcófago e, como nenhum deles cabia, Osíris decidiu experimentar. Mas o que ele não sabia era que o objeto havia sido feito com sua medidas e, assim que ele entrou, Set e seus conspiradores fecharam e trancaram Osíris. Então eles jogaram o sarcófago no rio Nilo sua correnteza o arrastou até as águas do Mar Mediterrâneo.

A Busca de Ísis

Desesperada com o ocorrido, Ísis sai em busca do marido/irmão. Ela segue o rio até a desembocadura no mar e chega à cidade de Kypt (Biblos) onde descobre que os galhos de uma árvore (tamareira) haviam crescido ao redor do sarcófago envolvendo-o completamente. Está árvore havia sido cortada e usada para fazer uma coluna do palácio real local. Para poder retirar o sarcófago que agora estava incrustado profundamente na coluna do palácio, Isis precisou tornar-se ama da rainha que, segundo algumas versões, não era ninguém menos que Astarte, a divindade mítica da Babilônia (lá ela era conhecida por "Baalate", forma feminina para Baal).
Astarte, ou Ishtar da Babilônia, rainha de Biblos.
Em algumas versões, a rainha ajuda Isis a retirar a coluna do palácio e, então, ela volta ao Egito com o sarcófago de seu marido. Porém, em outra versão, Astarte não estava tão disposta a ajudar a rainha egípcia e precisava ser persuadida.

Tentando convencê-la a devolver-lhe o sarcófago de seu marido, Isis, que era uma grande mestre nas artes mágicas, tenta conceder imortalidade ao filho mais novo dela expondo-o ao fogo, mas acaba matando-o. Durante o caos que se seguiu à morte do príncipe, Ísis retirou a coluna do palácio onde estava Osíris, sequestrou o filho mais velho de Astarte e fugiu de volta para o Egito.

Chegando lá, o rapaz a surpreendeu ao beijar o rosto de Osíris. O olhar que ela dirigiu a ele foi tão cheio de fúria que ele morreu naquele instante.

Set ficou sabendo que Isis havia recuperado o sarcófago de seu irmão. Ele o encontrou e o esquartejou picotando seu corpo em diversos pedaços (a quantidade de pedaços difere de acordo com as diferentes versões da história) e espalhou-o pelo deserto, com exceção de seu pênis que foi jogado no Nilo.

A Ressurreição de Osíris

Osíris sentado no trono. Atrás dele estão Ísis e Néftis.
Na flor à sua frente estão os quatro filhos de Hórus
que representam aspectos do ritual de embalsamento.





Mesmo após o esquartejamento de seu marido, Isis não desistiu. Transformou-se numa ave e, com a ajuda de sua irmã, Néftis, encontrou um por um os pedaços espalhados, juntou tudo e Anúbis, criador das técnicas de embalsamento, envolveu Osíris em bandagens fazendo dele a primeira múmia da história Ísis, mestre que era nas artes mágicas de vida e morte, preencheu-o com o Sopro da Vida, o Pneuma e o trouxe de volta dos mortos.

No entanto, Osíris não estava completo. Faltava o pênis que havia sido comido por um peixe. Então ela fabricou um pênis que, de acordo com as diferentes versões da história, foi feito com diferentes materiais: galhos de árvore, ouro ou simplesmente  magia. Ela pousou sobre o ombro de Osíris, Thot retirou o sêmen dele e usou para inseminar o ventre de Ísis. E assim nasceu Hórus.

A partir de então, Osíris foi viver no submundo tornando-se o rei daquela região e deus dos mortos.

Hórus

Hórus é uma das divindades mais importantes do panteão egípcio, apesar de ser filho de Osíris, várias interpretações da mitologia e filosofia egípcias o veem como reencarnação do mesmo. Nas escrituras, o faraó em vida era relacionado a Hórus, e, depois da morte era realacionado a Osíris.

 Uma estela de 1400 a.C., contém um hino sobre o nascimento de Hórus:
Hórus com a coroa dupla do
Alto e Baixo Egito
Oh benevolente Ísis
que protegeu o seu irmão Osíris,
que procurou por ele incansavelmente,
que atravessou o país enlutada,
e nunca descansou antes de tê-lo encontrado.
Ela, que lhe proporcionou sombra com suas calças
e lhe deu ar com suas penas,
que se alegrou e levou o seu irmão para casa.
Ela, que reviveu o que, para o desesperançado, estava morto,
que recebeu a sua semente e concebeu um herdeiro (Hórus),
e que o alimentou na solidão,
enquanto ninguém sabia quem era...
Néftis amamentando o
pequeno Hórus.
Ísis, após ter dado à luz Hórus, escondeu-o nas terras pantanosas do delta do Nilo, longe dos olhos de Set. Onde Néftis o criou amamentou. Ela é retratada em várias pinturas na forma de uma vaca que amamenta o pequeno Hórus. Os Textos das Pirâmides se referem a Isis como aquela que deu à luz e a Néftis como a mãe que o criou. (aqui novamente as figuras de Ísis e Néftis se misturam: as duas eram mãe de Hórus.)

Sua mãe sempre lhe dizia que ele deveria crescer para proteger o povo contra seu tio Set e que deveria vingar morte de seu pai.

Como Set representava a secura do deserto, muitos interpretam as brigas entre ele, Osíris e Hórus como sendo a ameaça de épocas secas que sempre chegavam no Egito.

Na maioria das vezes, ao nascer, um deus masculino tinha sua contraparte feminina que era seu oposto harmonioso. Como isso não aconteceu com Hórus, ele foi encontrar sua contraparte em Set, mas, como os dois eram masculinos, sua relação não foi de harmonia.


Uma das muitas trindades da mitologia. O pai (Osíris), o filho (Hórus) e a mãe (Ísis).

A Contenda de Hórus e Set 

(História completa aqui.)

Hórus cresceu num Egito governado por Set, e, quando atingiu a idade adulta, foi perante os deuses da Enéade afirmar que era verdadeiro herdeiro do trono e que Set devia ser deposto.

Depois de muita discussão na corte dos deuses, Set decidiu desafiar o sobrinho. O prêmio para o vencedor seria se tornar o novo Rei. Nesta época, Hórus começou a ser reverenciado no Baixo Egito (norte do Egito) enquanto que Set era cultuado no Alto Egito (sul do Egito).

Vários tipos de disputas aconteceram naquela época.

Briga de Hipopótamos

Os deuses da Enéade propuseram o seguinte desafio: Set e Hórus se transformariam em hipopótamos e, aquele que sobrevivesse mais tempo debaixo d'água seria o vencedor.


Depois de vários meses passados do início do desafio, nenhum dos dois dava indícios de que sairia da água tão cedo, então Ísis resolveu interferir novamente. Ela atirou um arpão na água mas acertou Hórus por engano. Na segunda tentativa, porém, ela acertou Set e o fisgou. Ela o havia subjugado e podia matá-lo, mas Set implorou para que ela o deixasse viver e Ísis acabou cedendo.

O famoso símbolo do
Olho esquerdo de Hórus
Quando descobriu que sua mãe havia, novamente, libertado seu inimigo, Hórus ficou furioso e decepou sua cabeça demonstrando aos outros deuses o quanto ele podia ser perverso. Set o perseguiu e, ao encontrá-lo dormindo, retirou seus dois olhos.

A deusa Hator encontrou Hórus solitário e chorando sem os olhos na montanha. Ela capturou uma gazela e retirou seu leite e o usou para restaurar os olhos de Hórus.

 

Disputa Homossexual

Os deuses da Enéade decretaram que uma trégua deveria ser feita e Set convidou Hórus para dornir em sua casa.
Para afirmar sua dominação sobre Hórus, Set seduziu-o e teve relações sexuais com ele. Sua intenção era ejacular seu esperma dentro do corpo de Hórus, mas Hórus o enganou e o fez ejacular em sua mão, capturou o sêmen dele e jogou no rio para que ninguém pudesse dizer que Set o havia fecundado. Então, Hórus ejaculou secretamente seu próprio sêmen num pé de alface, que era o alimento preferido de Set. Depois que Set havia comido o alface, os dois foram novamente perante os deuses da Enéade para uma nova audiência sobre a regência do Egito. Set disse que podia provar sua superioridade sobre Hórus e chamou pelo seu sêmen. Todos esperaram a resposta, mas quando ela chegou, perceberam que ela vinha do rio, invalidando sua afirmação. Então foi a vez de Hórus, e, quando ele chamou seu sêmen, ele respondeu de dentro de Set fazendo o conselho decidir a seu favor.

Corrida de Barcos

Após oitenta anos de lutas e violência incessantes, os deuses da Enéade decidiram que o impasse seria decidido numa corrida de barcos. E, para tornar as coisas mais interessantes Set sugeriu que os dois deveriam usar barcos feitos de pedra.

Set cortou o topo de uma montanha para fazer seu barco, mas Hórus decidiu trapacear e construiu um barco de madeira e o cobriu com uma pasta de calcário para que parecesse pedra.

Os deuses se reuniam às margens do Nilo para assistir à corrida. Set chegou ao local da largada e atirou seu barco que ele afundou instantaneamente fazendo com que os deuses explodissem em gargalhadas.

Envergonhado e furioso, Set se transformou novamente num hipopótamo e atacou Hórus em seu barco. Os dois lutaram intensamente, mas Hórus logo tomou vantagem. Esteve prestes a matar seu inimigo, mas os outros deuses o impediram e decidiram encerrar a disputa decretando o empate entre os combatentes.

Muitos dos deuses simpatizavam com Hórus, mas sentiam certo receio pelo modo como ele havia se enfurecido com o ato de bondade de Ísis e estavam incertos sobre apoiá-lo completamente. Eles decidiram escrever uma carta a Osíris no submundo para pedir conselhos. Hórus ofereceu-lhe, como tributo, seu olho mágico. Osíris respondeu sem sombras de dúvidas que seu filho, Hórus, era o verdadeiro Rei. Ninguém, segundo ele, deveria tomar o trono do Egito através do assassinato. Set havia matado Osíris, mas Hórus não matara ninguém e era a melhor escolha.

Assim, ficou decidido, depois de muita luta, que Hórus era realmente o rei de Kemet, e Set finalmente aceitou abrir mão do reinado, não por que havia perdido as batalhas, mas por que a Lei dos deuses havia falado.

Amarrando as duas Terras


Os gêmeos Hapi amarrando as terras
Os faraós do Egito eram comumente referidos como sendo "Senhor das Duas Terras" e existem várias imagens mostrando o faraó e sua cópia num ato simbólico de "amarrar" as duas terras que, segundo alguns,

Segundo alguns, as duas terras são o Alto e o Baixo Egito (sul e norte respectivamente). Mas há quem interprete essa "amarração" de outra forma. Para alguns isso representa a união de dois lados opostos, o fim do conflito entre diferentes aspectos da vida e o início da harmonia.

Hórus e Set no ato simbólico de
 "amarrar as duas terras".
A representação mais comum do ato de amarrar as duas terras era a imagem dos deuses gêmeos Hapi que, apesar de terem um só nome, eram duas entidades que representavam a fertilidade que as águas do Nilo propiciavam naquelas terras em oposição à aridez das terras distantes do rio. Eles eram representados como homens azuis (referência às águas). Seus cabelos eram verdes e deles nasciam plantas e flores. Os dois possuíam uma barriga protuberante (simbolizando a plenitude fértil das colheitas por vir) e possuíam um único seio.

Há uma imagem que mostra Hórus e Set realizando o ritual de amarrar as duas terras, o que simboliza o fim de sua guerra e o início de uma convivência pacífica entre esses dois elementos conflitantes. Este elemento do mito reforça o fato de que Set não representava as forças do caos, pois ele aceitou a derrota assim que ela foi proferida pelos seus semelhantes, tamanho era seu respeito pela Lei.